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Caçadores e gestores cinegéticos testam munições sem chumbo

No passado dia 29 de fevereiro, a ATNatureza promoveu testes de munições sem chumbo para caça maior. Nesta ação participaram caçadores e gestores cinegéticos que ficaram sensibilizados sobre as consequências negativas da utilização de munições com chumbo para as espécies necrófagas e na própria qualidade da carne da caça, que é posteriormente consumida.

Informação e experiência valiosas

Os participantes puderam contactar com informação veiculada por um especialista em munições, que lhes expôs as diferenças técnicas entre as munições convencionais com chumbo e munições alternativas da nova geração, constituídas por ligas metálicas alternativas, isentas daquele metal pesado. Estas munições, para além de igualmente eficazes, ou mesmo superiores, no que respeita ao comportamento balístico, tem a vantagem de não se fragmentarem aquando do embate na peça de caça. “Esta é uma das diferenças fundamentais entre os dois tipos de munições: as munições com chumbo fragmentam-se quando embatem no alvo, sendo que testes efectuados em ambiente controlado demonstraram que, em média, os projéteis com chumbo perdem cerca de 23% do seu peso após o embate, enquanto que as munições de nova geração se mantêm integras”, afirmou o Dr. Rui Pereira (CACICAMBRA), que colaborou nesta experiência. “É também uma forma de promover o aproveitamento integral da carne, dado não ocorrer contaminação da mesma com este tipo de projécteis, ao invés do que ocorre com os de chumbo”.

A perda que se verifica nos projéteis de chumbo corresponde a pequenos fragmentos que ficam geralmente incorporados na peça de caça, contaminando a carne na zona de percurso do projétil. Esta carne não deve ser consumida, nem por humanos, nem pela fauna silvestre, dada a elevada toxicidade deste metal pesado. Estas partículas uma vez ingeridas, são degradadas e absorvidas para a corrente sanguínea, são bio-acumuláveis, podendo desenvolver níveis de toxicidade aguda que podem causar alterações fisiológicas, comportamentais e mesmo a morte.

Workshop    shoot with new ammunition

Foi ainda veiculada informação, desconhecida para muitos, sobre os efeitos que a ingestão destas partículas tem nas espécies necrófagas, que se podem alimentar de animais não cobrados ou dos seus restos. Esta problemática é sobejamente conhecida em aves aquáticas, nomeadamente anatídeos, mas é ainda desconhecida para este grupo de espécies, que são particularmente sensíveis, por apresentarem elevada longevidade e ciclos de vida longos, com maturidade sexual tardia e baixa produtividade, em especial em áreas onde a caça maior constitui uma proporção importante do seu alimento. “Algumas das espécies com hábitos necrófagos que ocorrem em Portugal, como o abutre-preto, o britango e a águia-imperial, apresentam populações de reduzida dimensão e encontram-se ameaçadas, pelo que minimizar o impacto desta ameaça contribui certamente para a sua conservação” referiu Carlos Pacheco, um especialista em aves de rapina da ATNatureza, a associação promotora do projecto. “Para além do contributo para a conservação destas espécies ameaçadas, esta é também uma questão de zelar pela saúde de quem consome esta carne”.

O projecto

O projecto Anti-envenenamento no Mediterrâneo é coordenado pela Vulture Conservation Foundation (VCF)LINK, com o apoio da Fundação MAVA (LINK), surgiu com o objectivo de diminuir a mortalidade em abutres e outras espécies necrófagas e predadoras, causada pelo uso ilegal de venenos, mas também pelos envenenamentos indirectos, provocados pela utilização de munições com chumbo ou de determinados fármacos de uso veterinário. As acções do projecto realizam-se maioritariamente nas regiões onde estas problemáticas têm mais expressão, como os Balcãs (Albânia, Grécia, Croácia, Bosnia e Herzegovina, Macedónia e Sérvia), Portugal, Espanha e alguns países do norte de África (Marrocos, Tunísia e Egipto).

Uma das acções do projecto, na qual se integra esta actividade, passa por estabelecer áreas piloto onde se pretende sensibilizar os caçadores e gestores cinegéticos para a problemática do chumbo no ambiente, em particular quando ingerido pelas espécies de fauna silvestre e também para os riscos inerentes a própria saúde humana, causados pela ingestão de partículas de chumbo. Nesta intervenção, os participantes tiveram também oportunidade de testar, na prática, estas munições da nova geração no Campo de Tiro do Douro Sul, em Tarouca ( http://www.clubedetirodourosul.pt/) No final dos testes foram distribuídas pelos participantes, munições que serão por eles testadas na prática do acto venatório. Ficaremos a aguardar a sua avaliação sobre o comportamento e eficácia das munições e da participação na experiência!