A ATN desenvolve, na Reserva da Faia Brava, desde 2000, diversas acções de monitorização das populações de aves rupícolas e de melhoramento de habitat. As acções desenvolvidas no âmbito deste projecto têm-se centrado na restauração ecológica, através da valorização dos habitats e do aumento da disponibilidade alimentar das espécies mais ameaçadas:
Cerealicultura tradicional . Charcas e pontos de água . Pombais tradicionais . Campo de alimentação de aves necrófagas . Repovoamento com coelho-bravo . Monitorização e vigilância das populações de aves rupícolas
CEREALICULTURA TRADICIONAL
Esta acção, apoiada financeiramente pelo projecto "Promoção e Valorização do Património Natural do Vale do Côa" (CCDR-C), foi desenvolvida em 2007, e resultou na implementação de 30 parcelas de cereal (cerca de 25 ha), em antigas áreas cerealíferas, no interior do território do casal de Águia-de-Bonelli.
As sementes e forragem produzidos nessas parcelas destinam-se à alimentação das espécies-presa da Águia-de-bonelli (Perdiz-vermelha, Coelho-brav e Pombo-da-rocha), favorecendo a recuperação e manutenção destas populações, o que contribui para o aumento da produtividade das Águias de Bonelli e Águia-real.
Esta acção favorece também a actividade cinegética e aumenta a biodiversidade na Faia Brava e na própria ZPE do Vale do Côa. O efeito compartimentador das parcelas de cereal (áreas abertas em contra-ponto a áreas de matos pré-florestais e bosque mediterrâneo aberto), permite ainda recrear o mosaico agro-florestal tradicional e gera uma maior heterogeneidade paisagística, com benefícios evidentes na redução de risco de incêndios de grandes proporções.
A partir de 2008, no âmbito do plano de monitorização da Faia Brava, a ATN efectuará o seguimento das populações de Coelho-bravo e Perdiz-vermelha, de forma a obter também dados sobre o efeito das parcelas de cereal nas populações destas espécies.
Resultados esperados: (a) Aumento da densidade das principais espécies-presa da Águia-de-bonelli (Coelho-bravo, Perdiz-vermelha e Pombo-da-rocha); (b) Sedentarização dos casais de Águia-de-bonelli; (c) Melhoramento da condição física dos indivíduos reprodutores e aumento do sucesso reprodutor da população de Águias-de-bonelli.
CHARCAS E PONTOS DE ÁGUA
Na Reserva da Faia Brava, entre 2004-2006, foram construídas 5 charcas de média dimensão, em terrenos próximos do vale do Côa. Estas charcas têm como principal objectivo aumentar a disponibilidade alimentar de 1 a 2 casais de Cegonha-preta, que nidificam no vale do Côa, dentro dos limites da Reserva da Faia Brava.
Em 2007 e 2008, nas margens destas charcas, foram plantadas dezenas de árvores, como forma de iniciar o processo de naturalização de forma mais rápida. Seguidamente, será necessário efectuar transplantações de outras plantas ripicolas e aquáticas autóctones.
Estas charcas beneficiam igualmente outras espécies, nomeadamente o Coelho-bravo, Perdiz-vermelha e Pombo-da-rocha. Estas charcas são também usadas pelos pastores locais.
A partir de 2008, como parte integrante do plano de monitorização da Faia Brava, a ATN efectuará o seguimento de anfíbios nas charcas, de forma a obter também dados sobre disponibilidade alimentar para a Cegonha-preta.
Resultados esperados: (a) Aumento da disponibilidade alimentar da Cegonha-preta (anfíbios e peixes); (b) Melhoramento da condição física dos indivíduos reprodutores e aumento do sucesso reprodutor da população de Cegonha-preta; (c) Recuperação das populações de Coelho-bravo, Perdiz-vermelha e Pombo-da-rocha.
POMBAIS TRADICIONAIS
Em 2004, foram recuperados 3 pombais da ATN, na Reserva da Faia Brava. Estes pombais têm sido mantidos e sustentam uma população saudável de cerca de 200 casais de Pombo-da-rocha.
O Pombo-da-rocha é uma das espécies-presa mais importantes para a Águia-de-bonelli. Com a recuperação, repovoamento e manutenção dos pombais tradicionais a ATN pretende aumentar a população de Pombo-da-rocha e promover igualmente a instalação da população no seu habitat natural, dado que esta é também uma ave rupícola.
Os pombais tradicionais são também elementos importantes da paisagem e do património arquitectónico e cultural da região. Os pombais eram mantidos pelos agricultores em propriedades muitas vezes bastante afastadas da aldeia. Os dejectos das pombas eram utilizados como estrume nas propriedades circundantes e os borrachosz/ (crias dos pombos) eram também utilizados na alimentação. O tamanho e complexidade dos pombais varia e dependeria das posses de cada família. O abandono e mecanização da agricultura levou ao abandono dos pombais.
No âmbito do plano de monitorização da Faia Brava, é efectuada uma contagem mensal de pombos adultos e borrachos existentes em cada pombal gerido pela ATN, para obter dados sobre o sucesso reprodutor dos pombos, as condições sanitárias de cada pombal e também para efectuar uma estimativa da disponibilidade alimentar fornecida pelos pombais à Águia-de-bonelli.
CAMPO DE ALIMENTAÇÃO DE AVES NECRÓFAGAS
Entre o final de Agosto e o início de Setembro de 2007 foi contruído o campo de alimentação de aves necrófagas da Reserva da Faia Brava, financiado pelo projecto "Promoção e Valorização do Património Natural do Vale do Côa" (CCDR-C). Este alimentador encontra-se em fase de licenciamento por parte da Direcção Geral de veterinária (DGV) e pelo Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB).
A ZPE do Vale do Côa constitui uma das áreas mais importantes para a nidificação aves necrófagas, nomeadamente Grifo e Abutre-do-egipto. Em termos de população nacional, o Grifo possui nesta área a maior colónia não fronteiriça de todo o país. Cerca de 30 casais nidificam na área da Reserva da Faia Brava. O Abutre-do-egipto possui presentemente 6 casais nesta ZPE, constituindo o quarto núcleo mais populoso do país. Dos 6 casais desta ZPE 4 nidificam na proximidade da Reserva da Faia Brava. É importante assinalar que, em anos recentes, desapareceram alguns casais desta espécie na região.
Dada a raridade da população de Grifo no interior do país (considerando os sectores afastado não fronteiriços), e dada a regressão que o Abutre do Egipto tem tido a nível nacional e a nível da ZPE do Vale do Côa, a construção deste campo de alimentação de aves necrófagas assume uma importância significativa para a conservação de ambas as espécies na ZPE do Vale do Côa.
Tendo em conta as crescentes restrições sanitárias impostas pelos serviços veterinários nacionais e da União Europeia, a única ferramenta legal que pode ser utilizada para manter os recursos alimentares das populações de aves necrófagas corresponde à construção de vedações devidamente preparadas (Decreto-Lei nº 204/90 de 20 de Junho), sempre com acompanhamento veterinário.
A ATN pretende dotar a ZPE do Vale do Côa de uma infra-estrutura, que permita que os proprietários das explorações pecuárias desta área possam continuar a realizar as práticas tradicionais de eliminação de cadáveress (Abutre-preto, Águia-real, Milhafre-real, Milhafre-preto e Corvo).
Resultados esperados: Aumento da disponibilidade trófica para as populações de aves necrófagas.
REPOVOAMENTO COM COELHO-BRAVO
Entre Setembro de 2007 e Fevereiro de 2008 realizou-se, na Reserva da Faia Brava, a obra de construção de 2 parques de repovoamento e alimentação de Coelho-bravo.
Tendo em consideração a existência de 1 casal de Águia-de-bonelli na ZPE do Vale do Côa, e sabendo da forte regressão que a população do Nordeste de Portugal tem vindo a sofrer, pretende-se aumentar a disponibilidade de uma das suas presas principais, o coelho-bravo, e contribuir para a permanência do casal nesta zona e para o aumento dos seus parâmetros reprodutivos.
Assim, está prevista a gestão de 2 parques de detenção e repovoamento de Coelho-bravo, em regime semi-extensivo. A localização desses parques teve em conta a proximidade ao local de nidificação da águia de Bonelli e a densidade de coelhos bravos (foram escolhidas zonas de densidade quase nula).
A partir de 2008, no âmbito do plano de monitorização da Faia Brava, a ATN efectuará o seguimento das populações de Coelho-bravo, de forma a obter também dados sobre o estado da população de coelho-bravo na Reserva da Faia Brava.
Resultados esperados: (a) Manutenção do casal de Águia-de-bonelli; (b) elhoramento da condição física dos indivíduos reprodutores; (c) Aumento do sucesso reprodutor das Águias-dee-bonelli.
MONITORIZAÇÃO E VIGILÂNCIA DAS POPULAÇÕES DE AVES RUPÍCOLAS
Anualmente a ATN tem investido esforços na monitorização e vigilância das populações de aves rupícolas do vale do Côa.
A monitorização inicia-se em Fevereiro, com a contagem de ninhos das principais colónias de Grifo. De Fevereiro até Junho, através de visitas semanais à Reserva da Faia Brava e áreas circundantes, é feita a vigilância dos ninhos e, no final da época, é verificado o sucesso reprodutor das seguintes espécies: Grifo, Abutre-do-egipto, Águia-de-bonelli, Águia-real e Cegonha-preta.
Apresentamos de seguida os resultados obtidos na monitorização das principais espécies rupícolas nidificantes na ZPE do vale do Côa (número de casais reprodutores presentes na ZPE do vale do Côa, 2000 a 2006).
| Espécie/Ano |
2000 |
2001 |
2002 |
2003 |
2004 |
2005 |
2006 |
Abutre-do-egipto (Neophron percnopterus) |
7 |
7 |
7 |
5 |
4 |
4 |
4 |
Grifo (Gyps fulvus) |
14 |
10 |
14 |
15 |
22 |
30 |
35 |
Águia-real (Aquila chrysaetos) |
4 |
4 |
4 |
4 |
4 |
5 |
5 |
Águia-de-bonelli (Hieraetus fasciatus) |
2 |
2 |
2 |
1 |
1 |
1 |
1 |
Cegonha-preta (Ciconia nigra) |
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |